É sabido que no sótão de algum prédio comercial reside uma velha senhora, com seus cabelos brancos delicadamente presos, xale verde escuro e casaco vinho.

É sabido, mas não provado, pois essa senhora não pode ser vista por olhos vivos, apenas os desencarnados a visitam.

Ela é uma dessas místicas criaturas que estão condenadas a servir um propósito, nesse caso, enviar as boas almas para o céu. Uma espécie de porteiro divino.

Ela somente aceita bilhetes pinks. São até engraçados quando você os vir, e você quer vê-lo. Daqui a muitos anos, é verdade, mas você quer vê-lo. A outra opção envolve um pouco mais de dor.

O problema é como conseguir esse bilhete. Alguém muito querido seu, já no pós-vida, irá trazê-lo até você. Mesmo as antigas cantigas de roda pouco acrescentam sobre o fato e muitas dúvidas persistem. Por exemplo, quem trouxe o primeiro bilhete? Alguns supõe que a própria velha foi a primeira, punida a seu dever por isso. Ou então, e se você não conhecer ninguem? Bom, dizem que o inferno está cheio de boas intenções...

A questão é, uma vez com o bilhete, você tem 24 horas pra decidir se "embarca" ou não. E não pense que é uma decisão fácil, há muito a se ponderar. Mas isso é outra história...

Ressalto que tudo isso são antigas canções, poemas, depoimentos de quase-morte baseados em nada; não se assuste.

Uma vez decidido embarcar, você deve achar esse telhado, a velha estará lá, tricotando, sentada em uma cadeira de balanço voltada para o outro lado, indo e vindo... Palavras são desnecessárias, ela recolherá o ticket de costas, enquanto a outra mão continua a tecer um fio flutuante iluminado por uma vela e o guardará no bolso.

Uma vez provada a sua permissão para ir, ela se virará, e você não verá seu rosto. Ela não o tem. Você sempre está olhando para a nuca dela, a cabeça vira, mas o outro lado é apenas outra nuca. E nesse labirinto de almas, ela puxa o fio do seu cadarço, e o vai retirando com uma habilidade milenar.

Começam com os pés, canelas, joelhos e subindo... E você vai simplesmente desaparecendo, sendo desfiado, sua linha aprisionada na mão da velha, que sempre tricota essas mesmas linhas, em ninguem sabe o que.

No final, na altura dos cabelos, você já não vê nada, dizem que é apenas o final, e que o céu agora te espera.

Dizem.

Esses sonhos =)
Tudo começou numa gargalhada. Se me lembro bem era quinta-feira, chovia um pouco. Aquele homem sempre vinha aqui no bar, raramente acompanhado. Pediu uma água e uma porção de batata frita (quem pede isso?) e um tempo depois desatou a rir.

O sujeito não parou, juro, por pelo menos trinta minutos. O patrão achou estranho, ouvíamos falar de pessoas que ficavam loucas e começavam a rir, e isso atrapalha a clientela. Recebi a missão de pedir educadamente para o senhor se levantar e ir pra casa. Cheguei todo educado, mas antes do "boa noite" já estava sendo interrompido pelo próprio, que balbuciava algumas palavras no meio do seu sorriso:

- Já estou indo, diga a seu patrão que o cliente que me levaria a sério só deve chegar depois.

Minha vergonha era tanta que uma pessoa normal teria enfiado a cabeça no próximo buraco, igual aquele frango grande em desenho animado. Mas uma das vantagens em trabalhar a noite é que se vê de tudo, se faz de tudo. Perguntei logo o motivo da risada, e pela resposta posso garantir que ri também. O homem disse que tinha "entendido Deus". Devia ser um religioso fanático - sim, eles também vêm aqui.

Claro que ri disso, aproveitei uns minutos de folga (o patrão sempre se afastava quando expulsávamos algum cliente, dizia ele que ficava mais fácil quando o sujeito não tinha com quem reclamar) e sentei na mesa. Por que não?

O homem resolveu finalmente parar com a risada, embora estivesse ainda com aquele riso de quina de boca que agente fica depois de uma boa piada, e começou a explicar que sem querer, entendeu o mundo. Tinha entendido o que Deus tinha na cabeça quando criou o homem e que tudo agora era ridiculamente simples, esboçou algo como "Deus é um cara bem humorado" e mais risada.

Fiquei ali de bobo uns dois minutos, ele parou de rir, apontou para uma senhora atravessando a rua e disse que ela ia escorregar, e juro por tudo que é mais sagrado, a mulher, três segundos depois, deslizou o pé, quase caiu. Olhei assustado e ele continuava rindo, como uma pessoa que acabou de entender o filme todo e estava lembrando das partes...

Pouco depois, despediu-se e foi embora. Vi ele algumas vezes, sempre rindo, apontando ora pra uma formiga, ora pro céu. Pra ser sincero parecia feliz. Maluco, mas feliz.

=)