Tudo começou numa gargalhada. Se me lembro bem era quinta-feira, chovia um pouco. Aquele homem sempre vinha aqui no bar, raramente acompanhado. Pediu uma água e uma porção de batata frita (quem pede isso?) e um tempo depois desatou a rir.
O sujeito não parou, juro, por pelo menos trinta minutos. O patrão achou estranho, ouvíamos falar de pessoas que ficavam loucas e começavam a rir, e isso atrapalha a clientela. Recebi a missão de pedir educadamente para o senhor se levantar e ir pra casa. Cheguei todo educado, mas antes do "boa noite" já estava sendo interrompido pelo próprio, que balbuciava algumas palavras no meio do seu sorriso:
- Já estou indo, diga a seu patrão que o cliente que me levaria a sério só deve chegar depois.
Minha vergonha era tanta que uma pessoa normal teria enfiado a cabeça no próximo buraco, igual aquele frango grande em desenho animado. Mas uma das vantagens em trabalhar a noite é que se vê de tudo, se faz de tudo. Perguntei logo o motivo da risada, e pela resposta posso garantir que ri também. O homem disse que tinha "entendido Deus". Devia ser um religioso fanático - sim, eles também vêm aqui.
Claro que ri disso, aproveitei uns minutos de folga (o patrão sempre se afastava quando expulsávamos algum cliente, dizia ele que ficava mais fácil quando o sujeito não tinha com quem reclamar) e sentei na mesa. Por que não?
O homem resolveu finalmente parar com a risada, embora estivesse ainda com aquele riso de quina de boca que agente fica depois de uma boa piada, e começou a explicar que sem querer, entendeu o mundo. Tinha entendido o que Deus tinha na cabeça quando criou o homem e que tudo agora era ridiculamente simples, esboçou algo como "Deus é um cara bem humorado" e mais risada.
Fiquei ali de bobo uns dois minutos, ele parou de rir, apontou para uma senhora atravessando a rua e disse que ela ia escorregar, e juro por tudo que é mais sagrado, a mulher, três segundos depois, deslizou o pé, quase caiu. Olhei assustado e ele continuava rindo, como uma pessoa que acabou de entender o filme todo e estava lembrando das partes...
Pouco depois, despediu-se e foi embora. Vi ele algumas vezes, sempre rindo, apontando ora pra uma formiga, ora pro céu. Pra ser sincero parecia feliz. Maluco, mas feliz.
=)
sexta-feira, dezembro 16, 2011 |
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Personagens
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